INTERVIR

   

09/2002

 

 

 

 

A INTERNET NA ESCOLA DO 1º CICLO

Abílio de Melo Rosário Sabino

abiliosabino@hotmail.com

 

Introdução

     Paulatina, mas consistentemente, a Internet vai-se introduzindo na vida e nos hábitos de um cada vez maior número de cidadãos, urbi et orbi, no mundo em geral assim como neste nosso Portugal. A sua importância é tal que abrange praticamente todas as actividades humanas, lícitas ou ilícitas, nobres ou corruptas, lúdicas ou laborais. A escola, naturalmente, não pode deixar de aproveitar esta nova ferramenta que abre tais perspectivas que ainda mal se podem adivinhar as consequências. Daí que o investimento feito pelo Estado no sentido de equipar todas as escolas do 1º ciclo com uma ligação à Rede tenha sido algo que foi visto pela restante sociedade não só como natural mas até urgente face às novas exigências da Sociedade da Informação

     Ora, alguns meses passados desde a conclusão do programa de ligação das escolas à Internet, será oportuno e pertinente fazer-se um estudo ( mesmo que modesto) de como esse novo meio está a ser utilizado e quais as alterações e/ou dificuldades (se as houve) que trouxe à velha escola de quadro e giz, nomeadamente na relação professor/aluno e nas estratégias educativas.

     O que é certo é que, independentemente de como ela é encarada, ela aí está, para o bem e para o mal, tal como nos casamentos, para a alegria e para a tristeza, em união de facto com a escola, onde se instalou qual visita que veio para ficar, independentemente de ser bem ou mal vinda, trazendo naturalmente modificações que poderão ir de uma mudança na disposição da mobília, a uma alteração nas relações dos vários inquilinos anteriormente instalados: os professores e os alunos.

     É exactamente para tentar saber que alterações trouxe à escola ( se é que trouxe) nas relações entre os professores e os alunos o que se procura estudar com a realização deste trabalho. A oportunidade para a sua realização surge no seguimento da instalação de um computador com ligação à Internet no final do ano lectivo de 2001/2002 em cada uma das escolas do 1º ciclo do conselho escolar de que trata este estudo de caso. É que, de acordo com a experiência pessoal do autor, confirmando aliás o vem descrito em vária literatura sobre a implementação das novas tecnologias na educação (nomeadamente do computador), não basta apetrechar a escola com os recursos tecnológicos, pois, adaptando o conhecido provérbio chinês, não bastará apenas dar a cana, mais importante é ensinar a pescar.

     Sendo assim, a grande questão que se colocou ao partir para este trabalho foi de conhecer o contexto em que se utiliza a Internet nas escolas estudadas: se numa situação educativa tradicional, se num novo contexto educativo.

     Naturalmente que o tema é bastante abrangente e ambicioso (podendo ir desde os conteúdos às estratégias, dos equipamentos disponibilizados aos modelos pedagógicos aplicados, das expectativas criadas nos diferentes agentes envolvidos às teorias da educação subjacentes à sua aplicação), de modo que, como não poderia deixar de ser ao partir para uma investigação deste tipo e consciente de todos os condicionantes inerentes, nomeadamente em termos de tempo e de recursos, houve que definir o mais claramente possível o objectivo e âmbito do estudo através da formulação da pergunta de partida.

 

Objectivos e Metodologia

PERGUNTA DE PARTIDA: Como está a ser utilizada a Internet no Conselho Escolar estudado?

 

OBJECTIVOS:

    • Identificar os contextos educativos de utilização da Internet nas escolas estudadas
    • Identificar estratégias e metodologias de utilização da Internet
    • Saber se as professoras utilizam a Internet como um recurso para a aula tradicional ou como uma ferramenta de inovação da prática pedagógica
    • Conhecer as expectativas dos professores acerca do uso da Internet
    • Identificar possíveis obstáculos ao seu uso

 

CAMPO DE ESTUDO

     Um conselho escolar constituído por 5 escolas do 1º ciclo, inseridas em pequenas povoações e na sede duma mesma freguesia, apresentando por isso mesmo características socioculturais idênticas, tem a ver não só com as limitações do estudo, quer em meios, quer temporais, mas acaba também por limitar as variáveis que poderiam influenciar os resultados finais se acaso houvesse uma grande discrepância sociocultural em que as escolas estudadas estivessem inseridas.

     Definidos assim quer o âmbito da população-alvo, quer os objectivos e contextualização do estudo, houve que dar início ao enquadramento teórico das várias questões tratadas.

      Na revisão da literatura procurou-se dar uma panorâmica da influência da Internet na sociedade em geral, desde os novos modelos de representação do poder em que se fundamenta uma nova sociedade emergente onde já não se trata de produzir, armazenar, distribuir energia, mas antes produzir, armazenar, distribuir informação. Como é natural num trabalho deste tipo, procurou dar-se relevo às influências da introdução das novas tecnologias em geral e da Internet em particular noprocesso educativo.

     Foram também abordadas diferentes teorias da aprendizagem (comportamentalismo, cognitivismo, construtivismo cognitivo e socio-construtivismo) com o objectivo de por um lado situar as diferentes práticas das professoras e por outro lado procurando apresentar algumas das diferentes perspectivas de explorar as novas tecnologias e a Internet em contexto educativo.

 

METODOLOGIA: Estudo de caso qualitativo e analítico abrangendo 5 escolas do 1º Ciclo pertencente a um mesmo Conselho escolar.

Instrumentos de Pesquisa:

  • Inquérito por questionário (perguntas fechadas e dicotómicas, perguntas fechadas ordinais e de escolha múltipla)

   O questionário foi aplicado a toda a população- alvo e tinha como objectivos por um lado recolher informação sobre a utilização do computador e da Internet nas dimensões pessoal e profissional (quanto à frequência e ao nível de à vontade e por outro lado definir o perfil pedagógico das professoras ao recolher informação sobre as diferentes estratégias educativas mais utilizadas. Com a última pergunta através da aplicação da escala de Lickert procurava-se saber as expectativas quanto à utilização da Internet em contexto educativo e a opinião sobre possíveis obstáculos à sua introdução nas escolas do 1º ciclo.

 

  • Entrevista

   Após a análise das entrevistas seleccionou-se 3 professoras a utilizadoras da Internet nas suas salas a quem foi feita uma entrevista que constava semi-dirigida e que constava de 4 perguntas que procuravam fundamentalmente confirmar as respostas aos questionários e conhecer mais em pormenor quer as expectativas quer os obstáculos apontados.

 

  • Conversas informais

     

Análise dos resultados por instrumento

Os questionários

     As professoras mostram bastante à vontade com os computadores, possuindo a grande maioria formação específica, sendo todas utilizadoras frequentes (várias vezes por semana). Quanto à Internet, já revelam mais insegurança, embora revelem duma forma geral uma atitude facilitadora e boas expectativas quanto à sua exploração em contexto educativo.

     As principais preocupações apontadas foram a formação profissional e o número de computadores nas escolas, havendo apenas 2 referências aos conteúdos programáticos e outras 2 apontando a inexistência de actividades de incentivo à sua utilização como por exemplo concursos entre escolas ou outro tipo de programas.

 

As entrevistas

     As entrevistas foram sujeitas a uma análise categorial. Em síntese, podemos apresentar os resultados através de 2 grandes grupos de itens que emergiram da análise à transcrição das entrevistas:

 

As vantagens da introdução da Internet nas escolas

Os obstáculos à introdução da Internet nas escolas

  • Enriquecimento curricular
  • Desenvolvimento da cooperação entre alunos
  • Aumento da motivação por parte dos alunos
  • Introdução de novos temas para trabalhar
  • Falta de formação dos professores
  • Reduzida quantidade de computadores com ligação por escola
  • Rigidez dos currículos

 

Conclusões

     À pergunta de partida "como está a Internet a ser utilizada nas escolas do conselho escolar estudado" acabei por encontrar não apenas uma resposta, como seria desejável, , mas várias outras questões, como é natural.

     A resposta encontrada é a de que se por um lado este recurso ainda continua ao serviço de um paradigma tradicional, centrado no professor, que define e dirige quer a sua utilização pedagógica, quer as "coordenadas" da navegação, não deixando por isso espaço para a aventura da construção do saber, por outro lado começa a despontar claramente nas professoras inquiridas a consciencialização da necessidade de se adoptar um novo modo de estar –um novo paradigma – na relação entre os alunos e o professor, ideia essa que nos é transmitida pela preocupação apresentada na aposta da formação profissional nas respostas aos inquéritos que são confirmadas pelas entrevistas.

     A tecnologia não faz por si só mudar a escola. Já está a fazer mudar a sociedade e esta, por sua vez, exigirá mais e melhor escola. Mas a sua mudança só será bem concretizada se for realizada por todos os elementos da comunidade escolar –alunos professores e encarregados de educação.

© Intervir 2001-2002.