INTERVIR

   

09/2002

 

 

 

 

A Internet e a Deficiência Auditiva

Noélia Pedrosa

 

Internet e a Deficiência Auditiva foi tema de um estudo desenvolvido no âmbito de uma disciplina integrada no Curso de Complemento de Formação Científica e Pedagógica para Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico, a qual foi leccionada, no ano lectivo 2001/02, na ESEL, pólo de Caldas da Rainha.

            A síntese que aqui se apresenta pretende, apenas, expor resumidamente esta investigação, que se fundamentou em torno dos grandes progressos tecnológicos e comunicacionais que a sociedade tem vindo a testemunhar, relacionando-os com a deficiência auditiva, nomeadamente no que diz respeito ao potencial que os mesmos representam na educação de crianças portadoras deste défice.

            No que diz respeito aos avanços tecnológicos, é inegável o muito que têm participado na evolução social dos últimos tempos, tendendo, progressivamente, a culminar na expansão das comunicações. A Internet certifica esta afirmação, já que, com a sua rápida difusão, tem gerado uma força poderosíssima em torno da informação/comunicação, contribuindo para a modificação de comportamentos, mentalidades e estruturas de pensamento.

            Parecendo que não, este fenómeno pode trazer algumas implicações ao deficiente auditivo, uma vez que a comunicação é uma área onde enfrenta algumas barreiras, dadas as dificuldades que manifesta na aquisição da linguagem que praticamente todos usamos. Sendo esta, num universo constituído maioritariamente por ouvintes, o meio privilegiado, não só para fazer circular informações, mas também para aproximar os homens, é possível que o deficiente auditivo venha a sentir dificuldades em participar nesta nova sociedade cada vez mais tecnológica e comunicante, o que evidentemente lhe condicionará a edificação de relações sociais e afectivas. É, pois, imprescindível que a educação das crianças com deficiência auditiva integre uma vertente tecnológica, no âmbito da comunicação, a qual, para além de lhe facilitar a inclusão na vida activa, o auxilie no seu percurso educativo.

            Neste contexto, a Internet para além de representar infinitas possibilidades de comunicação, promove aprendizagens múltiplas socorrendo-se de uma ferramenta preciosa ao deficiente auditivo: a imagem. Trata-se de um recurso, considerado por diversos autores, muito auspicioso para o desenvolvimento linguístico destas crianças, por representar um meio onde abundantemente se utiliza a leitura e a escrita de uma forma significativa. Para além deste potencial, a Rede poderá, ainda, fomentar o crescimento de relações interpessoais, de autonomia, de iniciativa, de autoconfiança e contribuir para o desenvolvimento de processos cognitivos. É, assim, dada a oportunidade ao deficiente auditivo de desenvolver competências e destrezas que lhe permitam acompanhar activamente o avanço desta sociedade de informação.

            Apesar da Internet integrar um conjunto de meios possíveis de contribuir para o sucesso na educação do deficiente auditivo, tal só será praticável se o trabalho que o docente desenvolver com estas crianças integrar pedagogicamente este recurso. Uma integração que poderá depender dos recursos disponíveis no estabelecimento de ensino, do nível de à vontade do docente perante a sua utilização e, naturalmente, das representações construídas em torna da deficiência, pois para dar resposta às dificuldades é necessário ter consciência delas.

            Nesta perspectiva, foi pretensão deste estudo de caso descobrir se os professores do 1º ciclo de uma escola se encontravam receptivos para utilizar a Internet, enquanto recurso pedagógico, com crianças com deficiência auditiva. Para tal, foi seleccionada uma amostragem por conveniência, constituída por 26 professores de uma escola do 1º ciclo, a qual integra crianças com este défice.

            Como instrumentos utilizaram-se o inquérito por questionário, realizado ao número total dos sujeitos da investigação; a entrevista semi-estruturada direccionada a quatro das professoras que, no presente ano lectivo, acompanham alunos com deficiência auditiva e o preenchimento de grelhas que permitiram fazer o levantamento de dados relativos ao equipamento informático existente na escola e à respectiva utilização.

            Com os questionários foi possível determinar o número de professores que trabalhava com as crianças que são o objecto deste estudo, bem como fazer um levantamento das concepções formadas pelos docentes em torno desta deficiência, através da concordância/discordância manifestada pelos inquiridos face a algumas afirmações apresentadas. Foi, também, objectivo do questionário determinar o nível de à vontade dos docentes desta escola no que diz respeito à utilização de alguns serviços disponibilizados pela Internet. Foi, igualmente, possível através deste instrumento, relacionar estes dados com a formação recebida pelos professores nas áreas de deficiência auditiva e das TIC.

            As entrevistas permitiram caracterizar brevemente a deficiência dos alunos em questão, bem como o seu percurso educativo, o que facilitou a delimitação de áreas onde a utilização pedagógica da Internet seria vantajosa para estas crianças. Pretendeu-se, ainda, conhecer a opinião das entrevistadas relativamente à utilização da Internet pelo seu aluno, bem como a frequência dessa utilização durante o período lectivo, clarificando as razões que, do ponto de vista do docente, têm determinado a referida frequência.

            As grelhas mostraram que, nesta escola, há apenas um computador com ligação à Internet e deram a conhecer o número de vezes que a mesma foi usada, tal como, por quem, a duração e a finalidade de utilização.

            Depois de tratadas segundo modelos quantitativos, as informações recolhidas facultaram as seguintes constatações:

1. Os professores mostram ter uma tímida percepção das principais barreiras que a criança com deficiência auditiva enfrenta, destacando-se no todo do grupo aqueles docentes que já usufruíram de formação no domínio desta deficiência, pois foram os que maior concordância manifestaram com as afirmações apresentadas.

2. Apesar de haver um número considerável de docentes a dominar satisfatoriamente a maior parte dos serviços apresentados, e em especial a WWW, verificou-se que, no contexto global da escola, esse número é pouco significativo. Relativamente a este ponto, também aqui se verificou que os professores com formação na área das TIC se sentem ligeiramente mais à vontade do que os restantes, comprovando-se, assim, a ideia de que a formação parece dar um contributo positivo à actividade docente.

3. No que diz respeito aos alunos-alvo desta investigação, constatou-se que, na globalidade, o seu percurso educativo seria favorecido pela utilização pedagógica da Internet, nomeadamente em áreas como a linguística, a conceptual, ou simplesmente como recurso motivante. Não obstante esta relevância, averiguou-se que as professoras que acompanham estes alunos em nenhum ou em poucos momentos recorrem a este expediente. Os motivos apresentados prendem-se com a escassez de recursos ou com o facto de pouco dominarem os serviços em rede. Salienta-se, portanto, aqui, a necessidade, não só da existência de um maior número de computadores com ligação à Internet, mas também da disponibilidade de recursos humanos que permitam acompanhar um trabalho progressivamente diferenciado.  

4. Para além destes factores, as professoras entrevistadas mostraram, também, estar pouco conscientes das potencialidades pedagógicas da Internet, o que à partida poderá influenciar a frequência com que é procurada, sendo que esta, no contexto da escola, é muito baixa. Destaca-se, portanto, a ideia de que a formação é, sem dúvida, imprescindível e que a mesma deve acolher o maior número de formandos possível e abranger mais amplamente os serviços em rede, no domínio de uma sensibilização ao potencial pedagógico que representam, e como contributo para uma maior equivalência no nível de à vontade perante os diversos serviços de que dispõe.  

 

             Será, portanto, de reflectir a postura desta escola (e, já agora, de outras em situação análoga), a qual seria desejável que correspondesse à da instituição que se quer actual a promotora da inclusão social e profissional. Talvez seja altura de se reunirem esforços que promovam, não só políticas de formação e aquisição de recursos, mas também, que incentivem a optimização daqueles que já existem.

 


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