INTERVIR

   

09/2002

 

 

 

 

As TIC como ferramentas dinamizadoras de uma pedagogia de sucesso

Raquel Correia

   

INTRODUÇÃO

            O estudo que passamos a apresentar, desenvolveu-se no âmbito do Seminário do Curso de Complemento de Formação Científica e Pedagógica para Professores do 1º Ciclo, na Especialização de Apoios Educativos e Necessidades Educativas Especiais.

            Constatamos que, as TIC se apresentam com inúmeras possibilidades de suplantar os meios de comunicação considerados mais tradicionais.  

            Actualmente, seria impensável viver sem estas "novas" tecnologias. Em toda a sociedade, nos mais diversos gestos do quotidiano, elas estão presentes. Senão pensemos: como se processa a gestão de nossa conta bancária, como utilizamos o telemóvel, como se faz o controle do trafego aéreo,...

            Parece consensual, que o computador veio alterar a nossa vida em diferentes áreas- social, económica, educacional, profissional,... Muitas foram as profissões criadas com estas inovações e muitos foram os campos profissionais onde foi necessário reconverter muitos profissionais.

            O aparecimento das TIC, proporcionou a criação de serviços inovadores para os cidadãos, (Almeida et al.1999). No domínio da educação estas garantem o acesso ao saber a populações remotas (por exemplo: ensino à distância) e a populações com necessidades educativas especiais, além de potenciarem a exploração e o desenvolvimento de competências de pesquisa, interacção e manipulação, criando condições para a exploração de diferentes formas de intervenção pedagógica. De referir, que estas competências surgem no leque de orientações previstas pelo Ministério da Educação, dentro do currículo nacional.

            Podemos considerar que as TIC são um reflexo lógico do mundo e da sociedade actuais, devendo por isso espelhar-se na Escola. A mesma não fará sentido se não estiver integrada na sociedade, dever-se-à, para tal, munir de mais recursos humanos e materiais e, nomeadamente nas TIC (Ponte.2002). Para Oliveira et al. (2001), as TIC por si só, não são uma nova pedagogia, mas sim uma poderosa ferramenta ao serviço de novas pedagogias.

            Segundo Ponte (1997), as TIC não substituem o professor, são mais uma das muitas, ferramentas que este tem ao dispor. Porém, a Escola tem de se reorganizar em função de novas sociedades e de novos objectivos sociais.

            As Tecnologias de Informação e Comunicação são um meio fundamental no acesso à informação, à partilha, ao encurtamento das distâncias (Internet). Ora se, a informação se torna mais acessível vai transformando a forma de comunicar, contribuindo para uma maior interacção social, que é fundamental na construção do saber.

            Muitas são as modalidades de utilização das TIC, apresentadas por diversos autores. A título de exemplo apresentamos a perspectiva de Mucchielli (1998), que classifica os utilizadores ou potenciais utilizadores em "apreciadores" (sempre abertos às inovações e/ou já familiarizados com o computador); os "fugitivos" (sempre que podem evitam o contacto com esta tecnologia, devido à falta de formação/informação) e os "refractários" (críticos por natureza à inovação).

            A educação é porventura a área que mais se aproxima das TIC. A sua utilização, segundo Oliveira et al. (2001), em contexto escolar, o espaço da sala de aula (real e/ou virtual), pode tornar o ambiente de aprendizagem mais rico, promovendo a interacção entre alunos/saberes. É porém de salientar que, a implementação das TIC não soluciona os problemas educacionais, devem ser encaradas como ferramentas capazes de ampliar o processo de ensino-aprendizagem. Este processo deve ser o mais participado possível, sendo o aluno a construir o seu próprio saber. Deve partir de actividades significativas e significantes para os alunos, despertando-lhes a necessidade de pesquisar, de investigar, de explorar novos ambientes (paradigma interacionista e construtivista).

            Almeida et al. (1999), consideram que com as TIC, se abre um vasto leque de oportunidades para aqueles cujas aprendizagens não seguem o padrão "normal" de desenvolvimento, através do recurso a ambientes mais ricos de aprendizagem, sendo que estes contextualizados e adaptados às necessidades específicas de cada indivíduo. Com a utilização destas tecnologias, os jovens com NEE têm a oportunidade de ultrapassar dificuldades ou desvantagens e expandir as suas capacidades.

            Os défices, nas competências sociais, das populações com NEE, parecem estar interligados a défices cognitivos essenciais ao processamento da informação verbal e não verbal da comunicação (adaptado de Morato,1995). Seguindo esta linha de pensamento, a utilização das TIC, numa intervenção educativa para a reabilitação poderá ajudar a suprimir estes défices.

            O uso das TIC, em pessoas com dificuldades aumenta-lhes a motivação, os alunos parecem mais empenhados num processo de auto-desenvolvimento. Segundo Rodrigues (1999), importantes aquisições foram efectuadas a propósito da melhoria da literacia de alunos com dificuldades cognitivas e de aprendizagem.

            Picard e Braun, citados por Morato, 1995, p.173, identificaram as duas principais perspectivas das TIC na educação, em diferentes correntes de aprendizagem:  

A abordagem "Didáctica"  

A abordagem "Construtivista"  

  • Centrada nos objectivos  
  • Define uma progressão  
  • Orientação directiva  
  • Avalia e treina
  • Transmite o conhecimento  
  • O erro é mais ou menos penalizado  
  • O aluno adquire o conhecimento 
  • Centrada na criança  
  • Propõe situações de descoberta  
  • Orientação não directiva  
  • Estimula o potencial cognitivo  
  • Estimula a auto-construção pela experiência activa  
  • O erro pode ser construtivo  
  • O aluno constrói o conhecimento  

            Segundo Morato, em ambas as abordagens existem princípios pedagógicos fundamentais. Podem-se adequar as metodologias de intervenção em função das necessidades próprias de cada criança. Concluindo-se assim, que o importante não é conotar as fundamentações, mas sim, interpretar e adequar as metodologias mais vantajosas para a educação especial, tendo em consideração a especificidade de cada aluno.

 

OBJECTIVO DO ESTUDO 

              Pretendemos, através deste estudo, investir na percepção das Tecnologias de Informação e Comunicação como ferramentas dinamizadoras de uma pedagogia de sucesso.

            A Educação Inclusiva assenta na chamada Sociedade de Informação e na Sociedade da Globalização, uma nova forma de entender o Ser Humano e o seu processo de Ensino-Aprendizagem.

            A Tecnologia e a Informática são duas grandes aliadas para  desenvolver e optimizar as capacidades e as competências dos indivíduos. Mas, quando se tentam concretizar certas mudanças, convém conhecer os constrangimentos e os obstáculos que se podem encontrar. Com o presente estudo, tentamos de alguma forma conhecer e aprofundar estes factores relacionados com as formas de ensino que fazem uso das Tecnologias de Informação e Comunicação, que passaremos a denominar por TIC.

            Devido a diversos factores optámos por considerar a seguinte pergunta de partida:

Quais são os obstáculos e constrangimentos à generalização das TIC como ferramentas pedagógicas e didácticas?

 

Metodologia

Procedimentos/Instrumentos

            Decidimo-nos pela aplicação de entrevistas, para o desenvolvimento da investigação porque e cite-se: "é um meio de aprender práticas, fornece uma imagem do real correspondente à percepção selectiva que o interlocutor tem dele; na apreensão das representações, está ligado ao grau de expressão do locutor e às capacidades que o entrevistador tem para levar o interlocutor a falar, de modo a exprimir com o máximo de exactidão o que realmente pensa" (Luc et al.1997,p.50).

            Consideramos a entrevista como semi-directiva, baseada num guião, com relação verbal entre o investigador e as pessoas interrogadas: relação directa (frente a frente) e gravada. O entrevistador , e numa óptica semi-directiva, limitou-se  a seguir a linha de pensamento do interlocutor, ao mesmo tempo que zelava pela pertinência das afirmações face ao objecto de estudo e pela criação de um clima de confiança. Todas as questões colocadas visavam perceber o envolvimento dos entrevistados na utilização das TIC, os constrangimentos, os obstáculos e as suas expectativas em relação às mesmas como ferramentas dinamizadoras de uma pedagogia de sucesso.

            Realizou-se também observação directa (com guião), como meio de recolha de dados sobre o objecto de estudo e simultaneamente, como complemento a uma pesquisa de natureza documental. Foi também utilizado o método diário-entrevista (adaptado), com o qual se pretendia um registo de actividades relacionadas com as TIC.  

 

CONCLUSÕES

            Face ao problema inicialmente proposto para este estudo- Quais os obstáculos e constrangimentos à generalização das TIC como ferramentas pedagógicas e didácticas?- podemos considerar que todos os entrevistados revelaram uma atitude favorável à utilização das TIC, reconhecendo nas mesmas um contributo valioso para a intervenção educativa de que são agentes.

            Porém, e ainda que todos utilizem as TIC é visível que existem alguns constrangimentos e obstáculos, que impedem a generalização das mesmas como ferramentas pedagógicas e didácticas.

            Consideram, os entrevistados, e segundo a análise dos resultados obtidos através dos instrumentos referidos anteriormente, que a questão da formação, na área das TIC, surge como principal obstáculo, dado que a falta desta parece dificultar a adequação às novas tecnologias, criando espaço de resistência à mudança e ao envolvimento.

            Ao cruzarmos as informações recolhidas, podemos concluir que embora se verifique a utilização das TIC, estas parecem nem sempre serem exploradas no seu todo. Verifica-se a utilização do computador nas diferentes actividades, relegando para utilizações mais distantes outro tipo de tecnologias existentes do contexto da investigação.

            Parece-nos, que as TIC devem ser encaradas como área transversal, presente em todo o processo formativo, sistematizando e adequando a sua utilização; concorrendo desta forma para o seu objectivo final, que é a sua generalização como ferramenta pedagógica   e didáctica.


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