INTERVIR

   

09/2002

 

 

 

 

Desencadeando outras formas de comunicação na escola

Maria Helena Silveira Bonilla

 

     Após analisar, ao longo dos últimos anos, experiências de utilização da Internet na educação, pude perceber que o tipo de ações desenvolvidas estão ligadas fundamentalmente à busca de informações, ou, como normalmente se diz nas escolas, "Internet é para fazer pesquisa!", o que evidencia a procura por manter o modelo comunicacional da transmissão de informações. As informações que antes eram transmitidas pelos livros e pelos professores, agora são transmitidas pela Internet, ou seja, sua utilização é, basicamente, para navegação e captação de informações. A prática dos professores que a utilizam consiste, na maioria dos casos, em solicitar aos alunos uma pesquisa sobre determinado tema e os encaminhar ao laboratório de computadores para que busquem as informações pertinentes. O próprio conceito de pesquisa limita-se à busca de informações. Ao mesmo tempo, é discurso corrente que os alunos não sabem pesquisar, pois limitam-se a copiar o que encontram na Internet. Muitos deles apenas imprimem a página sobre o tema pedido e a entregam ao professor.

     Esta tem sido a forma utilizada para inserir a tecnologia no modelo de educação praticado nas escolas. O fato de a maioria dos professores não estarem familiarizados com o contexto das novas tecnologias faz com que percebam uma página web como um objeto estático, servindo apenas para transmitir informações e não como links para outras formas de comunicação, tais como correio eletrônico, chats, listas e fóruns de discussão. As múltiplas possibilidades de relações presentes na rede, que potencializam uma nova relação com o saber, em muitos casos não são percebidas, compreendidas e utilizadas por professores e alunos em sala de aula.

     Em meio a essa tendência geral, algumas iniciativas vêm se destacando pela utilização de correio eletrônico, chat, listas de discussão e fóruns. No entanto, são iniciativas direcionadas para a comunicação com outra escola, seja no país, seja no exterior. Praticamente não existem experiências que façam uso dessas formas de comunicação para trabalhar de forma interativa e cooperativa dentro da própria escola.

     É como se dentro de uma escola só fosse possível acontecer a comunicação presencial. No entanto, a comunicação presencial muitas vezes também não acontece, pois as salas de aula constituem-se em espaços fechados, onde uma turma de alunos se concentra por um determinado tempo, sem contato com as outras turmas. Também entre alunos de uma mesma turma a comunicação, muitas vezes, é mínima, pois em nome da ordem não é permitido aos alunos conversarem presencialmente.

     Por outro lado, é interessante perceber que os próprios alunos estão utilizando e mostrando outras possibilidades de comunicação. E os professores percebem isso, pois afirmam que os alunos utilizam e-mail e chat para se comunicar com os colegas. No entanto, não fazem uso dessas possibilidades no trabalho pedagógico. Percebem as tecnologias da informação e comunicação unicamente como formas de estabelecer comunicação com alguém que está distante no espaço, e não como formas de potencializar as interações presenciais que acontecem no âmbito da sala de aula e da escola.

     As possibilidades desencadeadas por essas formas de comunicação no desenvolvimento das dinâmicas pedagógicas possibilita o rompimento com a grade curricular fechada, com a lógica das turmas isoladas, com os muros que separam a escola do mundo externo, com os tempos escolares rígidos, com o modelo de relação professor-aluno tradicional, em que o professor transmite o aluno assimila, com a idéia da sequencialidade/linearidade do conhecimento.

     Vivenciei todas essas possibilidades durante minha pesquisa de doutorado, junto a uma turma de 6ª série do ensino fundamental numa escola do interior do Estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. Como os professores estavam experimentando o uso de e-mail, chat, lista de discussão e produção de páginas, foram desafiados a fazer uso dessas possibilidades e propor uma dinâmica que tentasse se diferenciar daquela tradicionalmente utilizada, que não se constituísse em um apêndice apenas do trabalho da série, que não se limitasse a ilustrar atividades corriqueiras, que não centrasse apenas em seu aspecto atrativo ou motivador, mas que fosse parte integrante do trabalho desenvolvido.

     O trabalho foi desencadeado a partir de uma visita ao bairro considerado o mais pobre da cidade, com o objetivo de iniciar uma discussão sobre as problemáticas sociais atuais, de forma a estabelecer relações com outros contextos. A partir dessa ação os alunos levantaram questões básicas vivenciadas naquele bairro e que chamaram a atenção pelos problemas que desencadeavam naquela comunidade. Essas questões giravam em torno de quatro temas: saneamento, fome, desemprego, desigualdades. E foi com base nessas quatro temáticas que os professores planejaram o trabalho a ser desenvolvido com os alunos. É importante salientar que os temas não foram impostos pelos professores, e sim surgiram dos problemas vivenciados por uma comunidade, problemas estes que foram levantados pelos próprios alunos, portanto plenos de significação para eles.

     A dinâmica constituiu-se de alguns encontros coletivos presenciais, com as duas turmas de 6ª série da escola, um no início do trabalho, a fim de socializar a proposta, outros no decorrer do trabalho, para planejar e executar ações conjuntas, e um no final para avaliar o trabalho realizado e colher subsídios necessários para projetar ações a serem desencadeadas na escola. Houve também um momento de socialização do trabalho à comunidade escolar – pais, professores, alunos das demais séries. Além dos encontros coletivos em que participavam os 60 alunos da série e todos os professores, foram organizados quatro blocos de trabalho presenciais, um para cada tema e nos quais trabalhava um grupo de 15 alunos de cada vez, durante os quais foram realizadas várias visitas à comunidade. Para articular essas atividades, foram organizados espaços de interação via rede Internet ao longo de todo o trabalho.

     A dimensão “rede” foi estruturante do trabalho, uma vez que aconteceu de forma paralela e integrada ao conjunto dos blocos temáticos presenciais. Constituiu-se da produção de um sítio na Internet[1], onde os professores organizaram um ambiente para disponibilizar a proposta de trabalho inicial em torno de cada tema, a produção dos alunos e links para outros sítios que continham informações sobre os mesmos. Além do sítio, cada aluno abriu uma conta de e-mail num provedor gratuíto, cujos endereços foram utilizados para a abertura de uma lista de discussão[2], também em provedor gratuíto, o qual disponibilizou ainda uma sala de chat para o grupo.

     A utilização de sítios www, e-mail, chat e listas de discussão, além de desencadear os processos de discussão presencial, potencializou esses processos ao prolongar as discussões para o âmbito virtual, uma vez que as problematizações e discussões ocorridas presencialmente eram socializadas e aprofundadas na rede, espaço comum a todos, alunos e professores. O movimento desencadeado com esse processo rompeu as fronteiras entre os temas, a rigidez dos programas prontos e dos grupos fechados, fazendo com que todos discutissem sobre todas as temáticas, ao longo de todo o trabalho, estabelecendo relações entre os fenômenos e as temáticas. Isso provocou também o movimento dentro de cada bloco de trabalho, que ia se transformando e ressignificando à medida que se desenvolvia, à medida que era trabalhado presencialmente com um novo grupo de alunos. Provocou ainda um movimento no sentido de uma produção realmente coletiva de conhecimento. Alunos de grupos e turmas diferentes produziam em conjunto.

     Mas não foram somente os alunos que produziram em conjunto. Também os professores, que várias vezes haviam salientado a dificuldade de trabalhar em conjunto, quer pela falta de tempo, quer pela falta de embasamento teórico para assim proceder, quer pela característica fragmentada do currículo escolar, começaram a refletir, propor, e produzir cooperativamente. E começaram também a interagir com as novas tecnologias. A satisfação gerada ao participar pela primeira vez de um chat, ou ao descobrir como fazer um link, ou ainda ao verificar sua produção disponível na Internet, foi um elemento importante para a disponibilidade de ousar, de querer experimentar uma prática diferente, para acreditar que é possível romper com as amarras do instituído.

     Professores que sentiam-se bloqueados para escrever um e-mail aos alunos, ao longo do trabalho foram sentindo-se mais seguros e livres para expressar suas idéias, para se comunicar abertamente numa lista de discussão. Professores que até então não sabiam como construir uma home page, começaram a produzir em conjunto com os alunos, e a aprender com eles. O fato de os alunos conhecerem algo que o professor não conhecia já não se constituía problema para os professores. Inclusive, em muitas situações, os professores recorriam aos alunos em busca de informações e auxílio com o computador.

     Os professores começaram a compreender que não são mais os detentores do conhecimento, que têm muito a trocar com os alunos, que os jovens não aceitam mais o modelo da recepção passiva, e por isso necessitam de mais liberdade para explorar, criar, se manifestar. Os alunos também conseguiram romper com a lógica do “copiar/colar” para apresentar ao professor. Nas primeiras mensagens veiculadas pela lista de discussão, ainda mantinham essa lógica – copiavam alguma informação da rede e enviavam por e-mail aos colegas. Mas à medida que o trabalho foi sendo dinamizado, que as visitas à comunidade iam acontecendo, começaram a expressar suas próprias opiniões, a estabelecer relações entre os temas, a problematizar a situação dos contextos visitados. E foi dentro desta lógica que produziram as páginas que estão disponíveis no sítio.

     A tecnologia deixou de ser mero instrumento para o consumo e a transmissão de informações e passou a ser o desencadeador da produção, não só de informações, mas também de conhecimento e cultura. Produção e socialização de informações, visto que muito poucas informações sobre o município e sobre o trabalho desenvolvido na escola encontravam-se disponíveis na rede Internet até então. Produção de conhecimento, pois a rede potencializou a troca, a problematização, o estabelecimento de relações, a ressignificação dessas temáticas. Produção de cultura, uma vez que o trabalho desencadeado pela 6a série deu origem a um movimento que atingiu as demais séries da escola. Outros professores, em outras turmas, passaram a utilizar lista de discussão e a produzir home pages com seus alunos, o que também está disponibilizado no sítio da escola[3]. Com isso, a cultura do consumo e da transmissão deu lugar à cultura da produção, à cultura de um uso mais complexo das novas tecnologias.

     A rede potencializou a integração entre conceitos e temáticas, possibilitando o rompimento de fronteiras entre as áreas do conhecimento. Temáticas que iniciaram sendo discutidas isoladamente, começaram a se imbricar à medida que as mensagens se intensificavam, de tal modo que em muitas situações já não era possível especificar a temática que estava sendo discutida. O mesmo ocorreu na produção das home pages. É impossível categorizar muitas delas como pertencentes a uma ou outra temática.

     A rede estruturou também uma outra relação entre as linguagens em uso na escola. A problematização, a discussão, o debate se intensificaram, não mais no sentido de responder uma pergunta feita pelo professor e sim no sentido de analisar os fenômenos, de estabelecer relações entre eles, de ressignificar conceitos. Os alunos sentiam-se mais livres para expressar-se utilizando o e-mail ou o chat, pois, segundo eles, dessa forma tinham certeza de serem ouvidos e certeza de que alguém iria interagir com eles. Também sentiam-se mais livres para expressar-se por escrito pois não sentiam o peso da avaliação do professor sobre eles. Estavam preocupados em se comunicar e com isso utilizavam expressões e sinais que não utilizavam nos trabalhos realizados normalmente em sala de aula. As fronteiras entre a oralidade e a escrita diminuíram, e com isso a comunicação se intensificou. O uso de efeitos, de imagens, de cores, também deu um outro significado à produção dos alunos, deslocando-a do modelo padrão da escrita para uma produção que envolvia diferentes estilos e composições, mais de acordo com as características dos jovens contemporâneos.

     Diversamente do que muitos pensam – que com a Internet o aluno não lê e não escreve mais – pudemos perceber com o trabalho que os alunos leram muito, escreveram muito, discutiram muito, analisaram muito, aprenderam muito, deram sentido ao trabalho escolar. Também, o conhecimento do contexto em que vivem foi mais significativo. Em lugar de ficar repetindo informações sobre temáticas que na maioria das vezes não são relacionadas com o seu dia a dia, passaram a explorar esse contexto com o objetivo de compreender as relações que se estabelecem entre seus componentes para poder então estabelecer relações com conceitos e conhecimentos mais amplos e com os quais a escola trabalha normalmente.

     As relações sociais também se estreitaram, quer entre os alunos, quer com os professores. O fato de sair da sala de aula, de sair da escola, de trabalhar em conjunto, fez com que se conhecessem melhor, com que conversassem sobre os mais variados temas, extrapolando os rígidos conteúdos tratados na escola, fez com que demonstrações de carinho pudessem ser externadas com mais intensidade, fez com que a corporeidade pudesse ser explorada, o que ajudou a diminuir a distância entre professor e aluno, a desmistificar o papel do professor como aquele que “sabe tudo” e do aluno como aquele que “nada sabe”. Um importante passo foi dado no sentido de que ambos, professor e aluno, percebessem que todos têm limitações, todos têm conhecimentos a serem compartilhados, todos têm a aprender com todos, e que a aprendizagem não acontece individualmente, ela se dá no coletivo, na interação.

     O uso dessas possibilidades oferecidas pela rede oportunizou o rompimento com as tradicionais atividades realizadas em sala de aula. Mas, mais do que romper com as tradicionais atividades, foi possível perceber que a escola pode trabalhar utilizando outras racionalidades, além daquela própria da linguagem escrita, e que se aproximam bem mais das características dos alunos e do contexto contemporâneo. O fato da produção ser divulgada, socializada, fora da escola, deu a eles ânimo e vontade para criar e produzir.

     Experiências como essa podem ainda ser potencializadas com experiências de comunicação entre escolas. Um tipo de experiência não invalida o outro. Ao contrário, se dentro de uma escola já existe diversidade, seja cultural, seja de conhecimentos, seja social, muito mais entre escolas de regiões ou países distantes. Colocar essa diversidade em contato é fundamental para a educação, seja dos alunos, seja dos professores. Além de uma rede de escolas, é importante constituir uma rede na escola, pois é esta que, além de mexer com as estruturas internas, pode colocar a escola numa rede mais alargada, ou seja, pode fazer da escola, e não apenas de um ou outro professor, um ou outro grupo de alunos, um ponto significativo nessa rede mais vasta.

     O importante é ter presente que, em educação, as experiências não podem ser excludentes. Não basta desenvolver ações num sentido ou noutro. As possibilidades que as novas tecnologias da informação e comunicação desencadeiam de desenvolvermos uma ação, e outra, e mais outra, pode gerar um contexto de dinâmicas que permitam emergir o novo, o diverso, o complexo, o impensado, e dessa forma termos uma educação muito mais significativa, tanto para alunos quanto para professores.



[3] www.ceap.g12.br

 


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